Grupo Galpão reforça vínculo histórico com festival
16/04/2026
(Foto: Reprodução) Um dos motes da 34ª edição do Festival de Curitiba foi celebrar a arte do teatro como uma arte essencialmente coletiva. Por ser exemplo de resiliência, reinvenção e força de permanência, o Grupo Galpão foi uma das 10 companhias convidadas para compor a programação deste ano. Na verdade, a história do Grupo Galpão e do Festival de Curitiba se entrelaça há décadas, e ajuda a explicar tanto a trajetória da companhia quanto a própria consolidação do evento como um dos principais palcos das artes cênicas no país.
Em 2026, o grupo mineiro chega à sua 13ª participação no festival. E, desta vez, trouxe à Mostra Lucia Camargo o premiado espetáculo “(Um) Ensaio Sobre a Cegueira”, uma adaptação do romance de José Saramago que propõe reflexões sobre o mundo contemporâneo.
Mais do que uma nova apresentação, o retorno a Curitiba teve um significado especial para o Galpão. “A gente tem uma relação muito profunda e muito antiga com o festival”, afirma o ator Eduardo Moreira, um dos fundadores do grupo. “Num momento em que ainda não tínhamos tanta projeção, o Festival de Curitiba ajudou muito a dar visibilidade ao nosso trabalho.”
“Romeu e Julieta” marcou a trajetória da companhia e ampliou sua projeção nacional a partir de apresentações no Festival de Curitiba.
Divulgação/Guto Muniz (1992).
Essa conexão começou ainda nos primeiros anos da companhia, fundada em 1982, em Belo Horizonte. Antes de alcançar reconhecimento nacional, o grupo já ocupava as ruas da capital paranaense com montagens como “A Comédia da Esposa Muda” e “Corra Enquanto é Tempo”.
Com o passar dos anos, o vínculo se fortaleceu. O sucesso de “Romeu e Julieta”, nos anos 1990, ampliou o alcance do Galpão e o festival seguiu como uma vitrine importante dessa trajetória.
“O festival nos permitiu apresentar praticamente toda a nossa obra ao público de Curitiba”, lembra Moreira. “É uma relação de troca muito forte.”
Eduardo Moreira, um dos fundadores do Grupo Galpão em cena de “Romeu e Julieta”. Direção Gabriel Villela.
Divulgação/Guto Muniz (2002).
Teatro como construção coletiva
Reconhecido por sua linguagem que mistura o popular e o erudito, o Grupo Galpão construiu sua identidade a partir do trabalho coletivo e da experimentação.
Ao longo de mais de quatro décadas, a companhia não seguiu fórmulas rígidas, foi reinventando-se em diálogo com diferentes diretores e estéticas, mantendo como base a ideia de pensar o teatro como um trabalho de grupo. “A gente não planejou, foi um caminho muito intuitivo, construído na prática”, conta Moreira. “Mas sempre existiu o desejo de continuidade, de fazer um teatro que fosse também um espaço de reflexão.”
Ao longo de mais de quatro décadas, essa escolha se transformou em marca registrada. Com diferentes diretores convidados e processos colaborativos, o Galpão construiu uma trajetória que combina diversidade estética e reflexão constante sobre o papel do teatro.
“Cada espetáculo carrega nossas dúvidas, nossas questões. O teatro é também um espaço de investigação existencial”, resume o ator.
Essa característica ajudou a moldar um repertório diverso, que transita entre o teatro de rua e o palco, o clássico e o contemporâneo, sempre com forte comunicação com o público.
Um clássico que dialoga com o presente
Na edição deste ano, o grupo apresentou uma montagem que reforça essa capacidade de diálogo com o tempo atual. Em “(Um) Ensaio Sobre a Cegueira”, dirigido por Rodrigo Portella, vencedor do Shell 2026 de Melhor Direção, o universo distópico criado por Saramago ganha novas camadas de significado.
“(Um) Ensaio Sobre a Cegueira”, montagem do Grupo Galpão apresentada na 34ª edição do Festival de Curitiba.
Divulgação/Maringas Maciel (2026)
“A obra se tornou ainda mais atual”, afirma Moreira. “As ameaças à democracia, as tensões sociais, tudo isso aparece de forma muito forte.”
A peça explora os limites entre civilização e barbárie a partir de uma situação extrema: uma epidemia que leva personagens ao colapso das regras de convivência. No palco, a narrativa se transforma em reflexão sobre o presente.
“São limites muito frágeis. Quando as estruturas se rompem, aquilo que a gente entende como civilização pode se desfazer rapidamente”, diz o ator.
Entre memória e continuidade
A participação deste ano também marca a primeira vez que o grupo retorna ao festival sem a atriz Teuda Bara, uma de suas fundadoras. Homenageada pela organização, que dá seu nome à sala de imprensa, ela permanece como referência na história da companhia.
Teuda Bara em “Nós”, espetáculo com direção de Marcio Abreu.
Divulgação/Igor Keller (2017)
“Teuda faz muita falta, ela encarnava o espírito de festa, de alegria e de despudoramento do teatro, mas seguimos em frente com tudo o que ela representa”, resume Moreira.
Entre passado e presente, o reencontro com Curitiba reafirma o lugar do Festival na trajetória do Grupo Galpão, não apenas como palco de apresentações, mas como parte ativa de uma história construída ao longo de mais de 40 anos.