O fio que une o campo à alta costura

  • 24/08/2026
(Foto: Reprodução)
O orvalho ainda borda a plantação nas terras de Diamante do Oeste, no Paraná, quando Neomir gira a chave do trator. O motor desperta devagar, costurando o silêncio da madrugada com o ronco do trabalho que recomeça. Lá fora, as amoreiras são podadas para oferecer folhas novas aos bichos-da-seda. Maria, esposa de Neomir, veste a capa de chuva para se proteger da umidade da folhagem e se prepara para alimentar as lagartas. O sol ainda nem despontou, mas, no barracão, já é possível ouvir o “barulho de chuva” que as milhares de pequenas criaturas, na quinta idade — o auge de seu crescimento — fazem ao devorar a amoreira em um compasso ritmado, transformando folhas em matéria-prima para o que, mais tarde, brilhará nas passarelas do mundo. O animal se alimenta apenas das folhas de amoreira. Gabrielli Schunski. O fio que começou em um chá Contam as lendas que a seda nasceu há mais de cinco mil anos, na China. A imperatriz Leizu tomava chá sob uma amoreira quando um casulo caiu em sua xícara. Ao tentar retirá-lo, notou que dele se desenrolava um fio resistente e frágil. Daquela descoberta, fiou-se um segredo guardado por séculos: a arte de criar o bicho e desenvolver tecido. Só no século 6, monges trouxeram ovos e sementes de amoreira até o Império Bizantino, costurando o início de uma rede que se espalhou por toda a Ásia e Europa. Hoje, o Paraná é a principal agulha desse bordado no Ocidente: responde por mais de 80% da produção brasileira, e o Brasil figura entre os maiores produtores de seda do hemisfério, graças a famílias como a de Neomir. A empresa Bratac, sediada em Londrina, é a única fabricante de fios de seda em escala industrial no Ocidente, e é ela quem entrega as caixas de lagartas que chegam às pequenas propriedades rurais. As idades do bicho O trabalho de produção da seda começa no campo, com o cuidado diário com os bichos-da-seda. Gabrielli Schunski. Na casa de Neomir, o tempo é medido em idades, não em dias. Durante as quatro primeiras idades, as lagartas se alimentam com maior espaçamento. Cada folha é um pedaço do futuro tecido. Quando chegam à quinta, elas comem de hora em hora, e pequenas caixas com divisória são colocadas sobre os bichos, onde tecem seus casulos, fiando o abrigo que as transformará em borboleta. Entre a primeira e a última idade, passa-se cerca de um mês. Lá dentro, as lagartas movem a cabeça em forma de oito, lançando um fio líquido que se solidifica ao tocar o ar. Em dois ou três dias, o trabalho está completo: um casulo de seda pura. Cada um deles pode conter até 1.500 metros de fio ininterrupto. Os desafios de fiar o sustento Fiar é sinônimo de paciência. O clima é o principal desafio. Chuvas em excesso ou longas estiagens afetam as amoreiras e, com elas, toda a produção. “O tempo é o que mais atrapalha”, confessa Maria. “Tem ano que as folhas ficam ruins, o bicho não come, e o preço cai”. Os produtores atuam com a sericultura durante seis meses do ano, tendo em vista que, nos períodos de frio, as lagartas não se desenvolvem. “Não dá para viver só desse tempo. Vamos fazendo uns bicos. Eu trabalho com construção, ajudo o pessoal no que precisar, mas ainda tem que mexer com a amora”, explica Neomir. A amoreira cresce melhor em climas subtropicais e temperados com chuvas regulares. Gabrielli Schunski. Borda histórias e vestidos Daqui, do interior do Paraná, os casulos bordam um longo caminho até as fiações e tecelagens. São mergulhados em água quente para amolecer a goma que une as fibras e, então, o fio é desenrolado. Vários casulos são fiados juntos, formando um único filamento contínuo. Esse fio, quase invisível, atravessa estilos e se transforma em tecidos de nomes quase poéticos: crepe de chine, twill, organza, chiffon, duchesse, habotai. Cada tipo de seda tem um caimento diferente: umas são leves como brisa, outras firmes como o toque de uma joia. Por isso, a seda é considerada a fibra natural mais nobre do mundo: respira, refrigera no calor, aquece no frio e reflete a luz de um modo que nenhuma fibra sintética conseguiu reproduzir. Nas passarelas de Paris e Milão, ela aparece como o ponto final de uma longa costura que começa em pequenas fazendas brasileiras. Grifes como Hermès, Dior e Valentino ainda a tratam como uma matéria viva, que deve ser cortada com respeito, como se cada vestido guardasse em si o “som de chuva” do barracão e o vento nas amoreiras. Esse musical de tempestade também pode embalar as noites por meio de lençóis de seda. De acordo com a designer de moda Tainara Oliveira, a seda se torna ainda mais valiosa quando é produzida por pequenas famílias rurais. “Ela ganha valor social e identitário, além do valor material. Isso fortalece a economia local, preserva saberes tradicionais e cria cadeias produtivas sustentáveis, em que o tecido carrega a história de quem o produziu”. Entre o campo e o luxo Poucos imaginam que a seda que cintila nas vitrines nasceu em galpões de madeira. A trajetória da seda começa nas mãos calejadas de quem alimenta as lagartas e termina no brilho das passarelas. Neste caminho, ela é fiada, torcida, tingida, cortada e costurada, um processo de transformação que espelha o próprio ciclo do bicho. O respeito ao tecido não acontece apenas na produção, mas também na fase de modelagem de um figurino, por exemplo: “A seda exige precisão técnica e sensibilidade. O desafio é conseguir traduzir sua leveza sem perder a estrutura. Costurar seda é quase um exercício de respeito à matéria. É preciso permitir que o tecido se mova, respire e mantenha sua naturalidade, sem tentar controlá-lo em excesso”, detalha Tainara. Cada metro de tecido carrega, invisível, o trabalho do campo. Um fio que une a poeira vermelha da roça e o tapete vermelho da moda. Texto produzido por Gabrielli Schunski de Souza, acadêmica do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, sob orientação da professora Julliane Brita, para a 24ª edição da Revista Verbo, veiculada na 5ª edição do City Farm FAG.

FONTE: https://g1.globo.com/pr/parana/especial-publicitario/fag-centro-universitario-city-farm/noticia/2026/08/24/o-fio-que-une-o-campo-a-alta-costura.ghtml


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